Dia Mundial da Água

Gostaríamos de compartilhar uma poesia para celebrar e refletir com vocês a importância do Dia Mundial da Água

No dia 22 de Março é celebrado o Dia Mundial da Água. A data convida a todos os habitantes do planeta Terra a refletirem acerca da importância desse bem maior da humanidade. Ajuda a lembrar também que toda forma de vida vem do mar e devemos preservar o Oceano.

Nós apreciamos a arte e seus contornos – poesia, dança, pintura, música, fotografia -, pois acreditamos que é a maneira mais próxima que o ser humano consegue de revelar sua Natureza.

Para celebrar o Dia Mundial da Água, vamos compartilhar o poema “Eu sou o Mar”, de Santiago Bernardes.

“Eu sou o Mar. De mim veio a Vida. Em mim ela permanece. Sempre. A vida em formas inimagináveis e secretas habita minhas mais profundas águas, onde olho humano algum mira.

Tudo o que é água, para mim retorna um dia, pois sou a origem, o leito e o destino de todas as águas. Os rios trazem todas as distâncias para mim. As montanhas, olhando as imensidões serenamente, um dia foram mar e voltarão a ser.

As chuvas são apenas gotas de mar que voltam para casa. Eu sou a casa. Onde todos os ventos encontram todas as portas e janelas abertas, onde navegam as solidões mais puras e longas. Tudo o que em mim naufraga se transforma em mar. Na força que arrebata rochedos e desmonta navios.

E, ao mesmo tempo, na franja de água que derrama sutilmente na areia uma flor, inteira e clara.

Na asas do pássaro e nas asas do vento, para um sou fonte de alimento, para outro espaço e movimento. Na intrincada trama que teceu os corais, as linhas das barbatanas dos tubarões, o casco das tartarugas, as conchas, os olhos dos peixes, os caracóis do tempo, as ondas e marés de anos e de gente.

Eu vivo além dos séculos.

Eu sou o mar. Há muito que estou aqui. Muito pouco, quase nada, me conhece, pois na escala do tempo grande, onde eu habito, seu existir iniciou-se apenas ontem. Pequenos olhos mirando assustados para tudo maior ao redor.

Nada sabe de minhas viagens, meus silêncios, meus temporais, minhas cavernas cavadas ao longo de milênios, meu correr moldando o planeta e suas terras, que só existem porque eu as desenho.

Pequenas ilhas flutuantes são seus navios, ou simples folhas soltas nas marés. Nem suas mãos minúsculas nem suas máquinas alcançam toda a profundidade do meu existir.

Eu vi cidades grandiosas afundarem inevitavelmente, com todos os seus tesouros, exércitos e ilusões, sob minhas águas que tudo vêem e tudo abarcam. Seres inimagináveis por seus olhos tão pequenos nasceram, viveram e morreram nessas águas, milhões de anos antes de seus frágeis pés pisarem essa terra antiga e sagrada pela própria existência.

Vi massas de escravos erguerem pirâmides, templos e palácios para outros homens pequenos como eles, escravos do medo da morte e da ilusão de permanência. Vi navios de madeira, frágeis cascas na tempestade, atravessarem essas águas e inundarem centenas de praias de sangue e loucura em nome de deuses inventados pela cobiça, no entanto, onde estão todos eles agora? Algum vestígio nas águas? Águas que apagam completamente civilizações da história e afogam deuses com seus altares de ouro e sacerdotes e vaidades.

Onde estava quando os continentes lentamente se desagregaram e viajaram como imensos navios de pedra nas incansáveis águas que arrastam o mundo?

Eu sou o Mar. Observo essas margens há muitas eras, às vezes em silêncio, às vezes dialogando vorazmente com os elementos, mudando-as, mas sempre, sempre em mim tudo começa e tudo se acaba.”

Poesia é sinônimo de #plantauma


O escritor Santiago Bernardes é o autor do livro “Palavrando” pela Editora Multifoco. Escreve e mantém a página Palavrando (clique aqui para acessá-la e conhecer mais obras de Santiago). Foto 500px.

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